“Minha mãe era uma pessoa
silenciosa, capaz de dissimular-se entre os móveis, de perder-se no desenho do
tapete, de não fazer o menor ruído, como se não existisse; contudo, na
intimidade do quarto que dividíamos, ela se transformava. Começava a falar do passado
ou a narrar suas histórias, e então o aposento se enchia de luz, desapareciam
as paredes, dando lugar a incríveis paisagens, palácios abarrotados de objetos
nunca vistos, países longínquos inventados por ela ou tirados da biblioteca do
patrão; colocava a meus pés todos os tesouros do Oriente, a lua e mais ainda,
reduzia-me ao tamanho de uma formiga, para eu sentir o universo a partir de
minha pequenez, punha-me asas para vê-lo a partir do firmamento, dava-me uma
cauda de peixe para conhecer o fundo do mar. Quando ela contava, o mundo
povoava-se de personagens, algumas chegando a ser tão familiares, que ainda
hoje, tanto anos depois, posso descrever suas roupas o tom de suas vozes. Ela
conservou intatas suas lembranças da infância da Missão do frades, retinha as
histórias ouvidas de passagem e aprendidas em suas leituras, elaborava as
substâncias dos próprios sonhos e, com tais matérias, fabricou um mundo para
mim. As palavras são grátis, costumava dizer e, e apropriava-se delas, eram
todas suas. Semeou em minha cabeça a idéia de que a realidade não é apenas como
percebida na superfície, possuindo também uma dimensão mágica e, tendo-se
vontade, é legítimo exagerá-la e dar-lhe cor, para que a passagem por esta vida
não se torne tão tediosa”. (pgs. 28/29)
Para
escrever sobre essa leitura resolvi citar um trecho que achei mágico, assim
como são, as obras de Isabel. Para dizer a verdade, parece que nesse trecho
encontro em palavras parte do que a leitura significa para mim. Na verdade, ás
vezes parece até mesmo uma fuga e se ler fosse um ato ilícito ou uma droga, eu
seria uma viciada, uma fora da lei. Mas, felizmente, é algo tido como bom em
nossa sociedade e assim, posso expor meu vício sem maiores problemas.
Porém, diferente da personagem, não
acredito que seja uma boa contadora de histórias. Eu me esqueço rápido delas,
mas é inclusive algo em que quero trabalhar, já que não tenho o dom natural,
mas como sempre, vontade e determinação.
Voltando ao livro e falando um pouco
sobre Isabel Allende, eu simplesmente adorei a história de Eva Luna. Isabel é
bastante imaginativa e sabe contar uma boa história, onde seus personagens nos
levam a uma viagem sempre fantástica. E essa é mesmo incrível.
(emprestado da
biblioteca Paulo Setúbal – 01/2012)
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